Crônica de uma balança desfavorável

Publicado  quinta-feira, 14 de julho de 2011

Nos anos 90 o Vasco tinha entre seus melhores jogadores o meia Ramon (há até pouco tempo no Vitória), craque que fazia parte de um dos melhores times que o clube já teve. Todos os anos, o jogador sentava para negociar seu contrato e todas as vezes a renovação se estendia mais do que o normal. Em algum momento o vice de futebol Eurico Miranda encerrava as negociação, deixava Ramon treinando e se recusava a vendê-lo até que ele aceitasse a oferta vascaína a contragosto. Era a época do passe. Clubes mandavam e desmandavam na vida dos atletas que tinham muito pouco poder exceto o de ficarem encostados e sem poderem jogar ou receber.

Anos depois essa era acabou. A Lei Pelé globalizou o futebol brasileiro e tornou o contrato e sua multa rescisória a âncora frágil que nortearia as relações entre clube e jogadores. Hoje o que vemos é que o poder mudou de mãos com empresários ditando os rumos das negociações e decidindo o destino de jogadores que as vezes nem mesmo conseguem jogar pelos seus clubes ou cruzam os braços com uma desfaçatez que talvez fizesse o próprio Ramon se indignar com tanto poder.

Esta semana, o atacante Kléber passou a exigir aumento no Palmeiras ao receber uma proposta do Flamengo. Conhecido como "Gladiador" por sua entrega em campo e exageros em divididas, ele chegou a faltar jogos alegando uma contusão descartada por médicos. A imprensa se refere a esse mal como "contratite", quando atletas alegam dores para negociar aumentos e não chegarem ao número de jogos que inviabiliza uma transferência nacional. Tudo isso recebendo salários. Após o Flamengo retirar sua proposta o Gladiador contra-atacou e deixou claro: não entraria em campo até resolver tudo.

Tudo o quê? Kléber tem contrato, recebe centenas de vezes o sonho salarial de boa parte das pessoas do mundo e o Palmeiras pagou caro para retirá-lo do Cruzeiro. Tem todo o direito de pleitear ganhar mais, mas não se recusar a cumprir seu trabalho por isso. E ele não é o único.

Em 2010 o jovem e promissor Valter insistiu e saiu do Internacional para desaparecer no Porto, Keirrison bateu o pé duas vezes seguidas para largar Coritiba e o próprio Palmeiras entre outros casos. E veja que nesses dois exemplos a transação pode ter resolvido a vida financeira de jogador e empresário, mas foi péssima para a carreira dos atletas.

Quando a lei do passe regulava as negociações contratuais criticava-se o excessivo poder dos clubes. Hoje pouco se fala dos quase onipotentes empresários com capacidade para fazer pouco de torcidas e instituições centenárias. Talvez seja a hora de repensarmos novamente essa relação e incluir um novo peso em uma balança tão desfavorável. Tratar o futebol exclusivamente como um negócio onde tudo se resume a quem paga mais vai matar exatamente o que torna ele tão lucrativo: a paixão.

4 comentários: